Produtora moçambicana conta como uma oportunidade temporária mudou a sua vida e a transformou numa referência na divulgação da cultura lusófona.
Há oportunidades que mudam uma vida inteira. Para Cristina Álvaro Côndjo, produtora da RTP África em Moçambique, tudo começou com um simples convite de uma amiga de infância.
Na altura, Cristina estava desempregada quando uma colega que trabalhava na RTP precisou entrar de férias e sugeriu que ela ocupasse temporariamente o seu lugar durante 30 dias. Sem imaginar o que o futuro lhe reservava, aceitou o desafio.
Quando o período terminou, recebeu o cheque correspondente ao trabalho realizado e preparava-se para regressar a casa. Mas o responsável da delegação tinha outros planos.
"Gostei muito de trabalhar contigo nestes 30 dias. Não tenho coragem de te mandar embora", recorda Cristina.
Formada em Contabilidade, ela nunca tinha trabalhado em televisão, muito menos num estúdio. Ainda assim, decidiu aceitar uma nova oportunidade. O desafio era integrar a equipa de produção de um programa televisivo dedicado à música e cultura dos países lusófonos.
O início não foi fácil.
Cristina lembra que ficou assustada com a responsabilidade de lidar com apresentadores, jornalistas, operadores de câmara e artistas. Tudo parecia complicado demais para alguém que nunca tinha estado naquele ambiente.
"Via aquilo como um bicho de sete cabeças", confessa.
Mas a persistência falou mais alto. Com orientação dos colegas e muita vontade de aprender, foi ganhando experiência e confiança. Hoje, quase duas décadas depois, diz que realiza o trabalho com naturalidade.
"Faço isto de olhos fechados. Já não me imagino a fazer outra coisa."
Uma ponte entre os artistas dos PALOP
Desde 2007, Cristina tornou-se uma das pessoas responsáveis por aproximar artistas dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa do público da RTP África.
Ao longo dos anos, construiu uma vasta rede de contactos com músicos, produtores e agentes culturais espalhados por Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e Moçambique.
Apesar da evolução tecnológica, admite que uma das maiores dificuldades continua a ser encontrar contactos diretos de artistas e obter informações sobre eventos culturais realizados nos vários países.
Segundo ela, muitos festivais e iniciativas importantes acabam por não chegar ao conhecimento da produção, o que dificulta a divulgação desses acontecimentos junto do público.
Ainda assim, acredita que as redes sociais e as plataformas digitais revolucionaram a forma de trabalhar.
"Hoje consigo obter informação muito mais rapidamente do que antigamente. Isso facilitou bastante o nosso trabalho."
A experiência profissional em Angola
Ao longo da sua carreira, Cristina teve a oportunidade de visitar Angola em missões ligadas ao seu trabalho na RTP África. Durante essas passagens, pôde conhecer de perto a cultura angolana, interagir com artistas e acompanhar a dinâmica do setor cultural do país.
A produtora destaca a hospitalidade do povo angolano e a riqueza cultural encontrada durante as suas visitas, experiências que contribuíram para fortalecer os laços profissionais com músicos e agentes culturais angolanos.
Segundo Cristina, Angola continua a ser um dos mercados culturais mais ativos da lusofonia, com artistas que desempenham um papel importante na promoção da música africana de língua portuguesa.
Muito além da televisão
Fora dos estúdios da RTP, Cristina também encontrou espaço para empreender.
Além do trabalho na televisão, administra uma pequena lanchonete em Maputo, onde vende refeições, bebidas e outros produtos alimentares.
Nos fins de semana, veste o avental e ajuda diretamente no atendimento aos clientes.
Para ela, os tempos mudaram e é importante criar fontes alternativas de rendimento.
"Hoje em dia não podemos depender apenas do salário."
Entre a televisão, o empreendedorismo e a promoção da cultura lusófona, Cristina Álvaro Côndjo continua a escrever uma história marcada pela dedicação e pela capacidade de transformar desafios em oportunidades.
O que começou como um trabalho temporário de apenas 30 dias tornou-se numa carreira de quase 20 anos dedicada à comunicação, à música e à valorização da cultura dos países de língua portuguesa.

.png)











Sem comentários:
Enviar um comentário