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sexta-feira, 4 de setembro de 2026

“Eu já passei pelo vale da sombra e da morte”: Clementina Cardoso revela fase em que pensou em desistir da vida

 


Apresentadora da Rádio Zango 8000 abriu o coração no Setembro Amarelo e contou como o amor da irmã de quatro anos ajudou a encontrar forças para continuar


“Tu não estás sozinho.” Foi com esta mensagem que Clementina Cardoso, estudante e apresentadora da Rádio Zango 8000, encerrou um dos testemunhos mais fortes já partilhados no espaço de comunicação da emissora sobre saúde mental.


Convidada para falar sobre o Setembro Amarelo, mês dedicado à sensibilização para a prevenção do suicídio e à valorização da vida, Clementina decidiu ir além dos discursos habituais e falar na primeira pessoa sobre uma fase difícil que atravessou.


Durante a conversa, a jovem revelou que viveu um período de profundo sofrimento emocional, marcado por tristeza, isolamento, alterações no sono, preocupação constante e perda de interesse por atividades que antes faziam parte da sua rotina.


Apesar de continuar a frequentar a escola, o curso e a cumprir as suas obrigações, por dentro a realidade era diferente.


A minha rotina era a mesma, eu ia para a escola, curso, voltava para casa, só que eu já não tinha aquela vontade”, contou.


Clementina explicou que começou também a descuidar-se da própria aparência e a evitar momentos de convivência com outras pessoas. Almoços e encontros familiares passaram a ser situações que preferia evitar, devido ao desconforto que sentia quando estava rodeada de pessoas e barulho.


“Eu guardei tudo para mim”

Um dos principais obstáculos enfrentados pela jovem foi o silêncio.

Clementina contou que, inicialmente, guardou aquilo que estava a sentir para si. Só posteriormente a irmã mais velha e o pai começaram a perceber que a mudança de comportamento não era apenas uma alteração passageira de humor.


A jovem passou a apresentar sinais que, olhando retrospectivamente, mostravam que alguma coisa não estava bem: irritabilidade, falta de sono, preocupação permanente e afastamento social.


Para Clementina, este é precisamente um dos grandes problemas relacionados com a saúde mental entre os jovens: muitas pessoas sofrem em silêncio porque têm medo de ser julgadas.


Temos muita vergonha de falar sobre a nossa saúde mental”, afirmou, explicando que ainda existe o preconceito de associar ansiedade e depressão à loucura ou à necessidade de internamento psiquiátrico.


O momento em que percebeu que precisava de ajuda

A viragem aconteceu quando Clementina começou a perceber que o seu estado emocional estava a afetar até a relação com a irmã mais nova, de apenas quatro anos.


Segundo o testemunho, a criança permanecia próxima dela mesmo quando Clementina estava triste, revoltada ou emocionalmente fragilizada. Abraçava-a, segurava-lhe a mão e procurava transmitir-lhe conforto.


Foi ao olhar para aquela relação que a jovem encontrou uma das principais razões para lutar pela própria recuperação.


Eu vi que a minha irmã de 4 anos merece muito mais do que uma irmã quebrada”, afirmou, emocionada.


A partir dessa perceção, começou também a conversar com a irmã mais velha e com o pai, reconhecendo que precisava de apoio.

“Eu já passei pelo vale da sombra e da morte”

Ao longo da entrevista, Clementina não escondeu a gravidade do período que viveu.


A jovem chegou a afirmar que já passou pelo que descreveu como “o vale da sombra e da morte”, revelando que, apesar de muitas vezes as pessoas não perceberem o que alguém está a viver, isso não significa que a pessoa nunca tenha passado por momentos extremamente difíceis.


Só de eu não mostrar, não quer dizer que eu nunca passei”, afirmou durante a conversa.

O testemunho ganha ainda maior peso quando Clementina deixa uma mensagem dirigida a quem, atualmente, possa estar a pensar em desistir.


Sem transformar o sofrimento em espetáculo, a jovem defendeu que é necessário falar sobre o assunto com seriedade e procurar ajuda.


Rádios e influenciadores têm responsabilidade

Na condição de comunicadora, Clementina também chamou a atenção para o papel das rádios, criadores de conteúdos e influenciadores digitais na construção de uma nova abordagem sobre saúde mental.


Para a apresentadora, é necessário abandonar a romantização da ansiedade, da depressão e do suicídio nas redes sociais.


Na sua visão, conteúdos aparentemente “tristes” podem acabar por embelezar ou banalizar problemas que exigem atenção e acompanhamento.


Temos que começar a falar do assunto como realmente ele é”, defendeu.

A jovem acredita que os influenciadores poderiam aproveitar o alcance que possuem para promover conversas mais honestas sobre saúde mental, uma vez que muitas pessoas enfrentam problemas semelhantes sem que os outros à sua volta percebam.


“Tu não estás sozinho”

Na parte mais direta do seu testemunho, Clementina dirigiu-se aos jovens, pais e a qualquer pessoa que esteja a atravessar uma fase de sofrimento emocional.


A mensagem foi simples: falar pode ser o primeiro passo.

Tu não estás sozinho. Tu podes ligar, tu podes conversar com alguém que tu achas que realmente vai te ouvir, que não vai te julgar”, afirmou.


A apresentadora aconselhou ainda quem enfrenta dificuldades a procurar apoio junto de familiares, amigos, psicólogos e estruturas de acompanhamento existentes nas escolas, universidades e hospitais.


Para Clementina, é importante reconhecer aquilo que se está a sentir e não enfrentar o sofrimento isoladamente.


Não precisas lidar com isso sozinho”, reforçou.


Um testemunho que pretende mudar a narrativa

A conversa de Clementina Cardoso com a Rádio Zango 8000 surge num momento em que o debate sobre saúde mental ganha espaço na sociedade angolana.


Mais do que falar sobre o sofrimento, a jovem decidiu falar sobre a possibilidade de superação e sobre a importância de pedir ajuda antes que uma situação de sofrimento se torne ainda mais grave.


O seu testemunho deixa uma mensagem central: uma pessoa pode continuar a estudar, trabalhar, sorrir e cumprir a sua rotina enquanto enfrenta uma batalha que ninguém vê.


Por isso, segundo Clementina, é necessário prestar atenção aos sinais, ouvir sem julgar e criar espaços seguros para conversar.


A entrevista termina com um apelo que resume toda a sua intervenção:


“Conversa. Fala. Procure alguém.”

E, para quem neste momento sente que já não consegue continuar, a mensagem de Clementina permanece: tu não estás sozinho.


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