O jornalista e escritor angolano Souza Jamba publicou uma crónica em que revisita a sua relação de longa data com a política angolana e com a dirigente Bela Malaquias, fundadora do Partido Humanista de Angola (PHA), abordando os desafios dos fundadores de partidos e as disputas internas que podem surgir após a consolidação de uma organização política.
Na crónica intitulada “A Mana Bela Malaquias”, Souza Jamba recorda o período em que conheceu Bela Malaquias, desde os tempos ligados à Jamba, antigo quartel-general da UNITA, descrevendo-a como uma mulher estudiosa, reservada e profundamente dedicada à leitura.
O jornalista também recorda a proximidade com o pai da dirigente política, Nelson Malaquias, a quem se refere como uma figura ligada à luta anticolonial e que chegou a enfrentar a prisão devido às suas actividades políticas.
Segundo Souza Jamba, o ambiente político e social em que Bela Malaquias cresceu ajuda a compreender a sua trajectória e personalidade. O autor defende que, em determinados contextos políticos, o questionamento interno não deve ser necessariamente interpretado como uma forma de deserção ou traição, mas pode representar uma manifestação de pertença e compromisso com uma determinada organização.
Na sua reflexão, Souza Jamba situa Bela Malaquias numa tradição política marcada pela contestação e pela capacidade de questionar. Mais tarde, a política angolana viria a fundar o Partido Humanista de Angola, tornando-se uma das figuras que optaram por criar uma organização partidária própria após uma trajectória ligada à UNITA.
O jornalista destaca, entretanto, as dificuldades enfrentadas por quem cria um partido político, sobretudo quando a notoriedade, a história e a credibilidade do fundador atraem diferentes interesses. Para o autor, existe o risco de determinadas pessoas aproximarem-se de uma organização não apenas por convicção política, mas também pela possibilidade de ascensão e construção de carreiras.
Na crónica, Souza Jamba faz ainda uma reflexão sobre os conflitos internos que podem surgir depois da consolidação de um partido, quando os próprios fundadores passam, por vezes, a enfrentar contestação dentro das estruturas que ajudaram a construir.
O autor chama a atenção para a existência de possíveis preconceitos e interesses políticos, sociais, regionais ou étnicos que podem manifestar-se de forma silenciosa no interior das organizações.
Sem fazer acusações directas contra pessoas ou organizações específicas, Souza Jamba considera que este fenómeno representa um dos perigos recorrentes da política, em Angola e noutras partes do mundo: figuas que constroem uma organização podem acabar confrontadas por aqueles que, posteriormente, procuram assumir o controlo das estruturas criadas.
A crónica termina com uma forte crítica, carregada de ironia, ao que o autor considera ser a transformação de disputas por poder em processos aparentemente institucionais. Souza Jamba utiliza uma metáfora envolvendo Judas, consultores, pareceres jurídicos e grupos de WhatsApp para ilustrar como conflitos políticos modernos podem ser apresentados como actos de defesa da unidade e da renovação institucional.
A crónica de Souza Jamba surge, assim, como uma reflexão sobre a trajectória de Bela Malaquias, a política partidária angolana, a fidelidade, a contestação interna e os desafios enfrentados pelos fundadores de organizações políticas.
Fonte: Crónica “A Mana Bela Malaquias”, de Souza Jamba.
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