Jovem inventor angolano desenvolve protótipos tecnológicos com materiais improvisados, construiu uma guitarra artesanal e apela ao apoio institucional e à formação técnica para aperfeiçoar as suas criações.
Domingos Jacinto, conhecido artisticamente como Domingos Alandes Mistral, é um jovem inventor angolano que procura transformar a criatividade em soluções tecnológicas. Residente em Cacuaco, província de Luanda, cresceu no bairro Cardoso, na zona do Benfica, província do Huambo, onde começou a desenvolver as suas capacidades criativas.
Para além da tecnologia, dedica-se à música, à composição e à poesia. Em entrevista à Rádio Zango 8000, o jovem partilhou a sua trajectória, marcada por dificuldades financeiras, determinação e vontade de desenvolver projectos que possam contribuir para a sociedade angolana.
Entre as suas criações estão um carrinho electrónico construído com materiais reaproveitados, uma guitarra artesanal feita com chapa e fios de embraiagem de motorizada e o projecto denominado Ango Electrónicos, que, segundo explicou, foi concebido para permitir o carregamento de telemóveis através de um sistema montado no corpo.
Das dificuldades familiares às primeiras invenções
O interesse de Domingos Jacinto pela tecnologia surgiu num período particularmente difícil da sua vida. Segundo contou à Rádio Zango 8000, interrompeu os estudos depois de concluir a 8.ª classe, devido à falta de condições financeiras da família para suportar as despesas escolares.
Perante as dificuldades enfrentadas pela mãe e pelos irmãos, começou a procurar formas de contribuir para o sustento familiar, utilizando materiais simples para construir pequenos objectos que posteriormente vendia.
Durante a entrevista, recordou um episódio que considera determinante para o desenvolvimento da sua criatividade.
Rádio Zango 8000: Como surgiu o seu interesse pela tecnologia e pelas invenções?
Domingos Jacinto: Tudo começou por causa das dificuldades que a minha mãe enfrentava. Houve um dia em que ela regressou do trabalho e encontrou os filhos a dormir, sem alimentação em casa. Eu disse-lhe para ter calma, porque chegaria o momento em que iríamos celebrar muitas vitórias.
Na manhã seguinte, saí com o meu irmão para recolher latas. Quando regressámos, utilizámos ferramentas como facas, pregos e martelos para começar a construir pequenos carros. Mais tarde, desenvolvi outras criações, que levava à praça para vender e, assim, conseguir alguma coisa para ajudar os meus irmãos.
Rádio Zango 8000: Qual foi uma das suas primeiras invenções?
Domingos Jacinto: Foi um carrinho electrónico construído com chapa, dínamos, lâmpadas, fios de cobre, uma bateria e componentes de telefones. Fiz a montagem dos elementos para que o carrinho pudesse movimentar-se.
Segundo explicou, o protótipo utilizava uma bateria de telefone para alimentar o sistema eléctrico, que distribuía a energia pelos componentes responsáveis pelo movimento do pequeno veículo.
Ango Electrónicos: um projecto para carregar telemóveis
Outra criação apresentada por Domingos Jacinto é o Ango Electrónicos, um projecto que descreve como uma tecnologia montada no corpo humano, com recurso a fios, carregadores e uma pilha seca, destinada a permitir o carregamento de telemóveis.
O inventor explicou que a ideia surgiu da vontade de desenvolver soluções alternativas para situações em que não existe acesso convencional à electricidade.
Rádio Zango 8000: Em que consiste o projecto Ango Electrónicos?
Domingos Jacinto: É uma tecnologia que desenvolvi utilizando lâmpadas, fios de cobre, carregadores e outros componentes eléctricos. O sistema é montado no corpo e, segundo a minha concepção, permite carregar um telemóvel com recurso a uma pilha seca.
Rádio Zango 8000: Já conseguiu determinar a voltagem do sistema?
Domingos Jacinto: De momento, ainda não consigo calcular a voltagem. O projecto continua em estudo e pretendo fazer novos desenvolvimentos para aperfeiçoar a tecnologia.
Apesar da proposta apresentada, o sistema ainda necessita de avaliação técnica independente para confirmar o seu funcionamento, a eficiência e a segurança da utilização no corpo humano. A ausência de uma voltagem determinada e de testes independentes não permite confirmar, nesta fase, que o dispositivo seja seguro ou eficaz.
Uma guitarra construída com chapa e fios de embraiagem
A criatividade de Domingos Jacinto também se estende à música. Em Agosto de 2024, enquanto trabalhava numa empresa de segurança, decidiu construir uma guitarra artesanal para acompanhar as suas composições.
A falta de recursos para adquirir instrumentos ou dispor de equipamentos musicais levou-o a procurar uma alternativa com os materiais que tinha à sua disposição.
Rádio Zango 8000: Como surgiu a ideia de construir uma guitarra com materiais improvisados?
Domingos Jacinto: Numa noite em que estava a trabalhar, senti vontade de compor música, mas não tinha um telefone com instrumentais para ensaiar. Então, decidi construir uma guitarra utilizando uma chapa que estava perto do local onde trabalhava.
Cortei a chapa, utilizei fios de cobre nas laterais e acrescentei fios de embraiagem de motorizada. Depois de terminar a montagem, comecei a tocar e consegui produzir sons que me permitiram trabalhar nas minhas músicas.
Rádio Zango 8000: O instrumento produz notas como uma guitarra convencional?
Domingos Jacinto: Ainda não produz sons com a mesma perfeição de uma guitarra convencional, mas permite tocar. Acredito que posso melhorar esta e as outras tecnologias, desde que tenha apoio e investimento.
A experiência demonstra como a necessidade de encontrar soluções acessíveis pode estimular a experimentação e a construção de instrumentos alternativos, embora o aperfeiçoamento dependa de conhecimentos técnicos e recursos adequados.
Segurança Angolana: um projecto ainda em desenvolvimento
Entre as ideias que pretende desenvolver está um projecto que denomina Segurança Angolana, relacionado com a utilização de robôs.
Segundo Domingos Jacinto, a iniciativa encontra-se numa fase inicial de estudo e poderá exigir bastante tempo até alcançar uma versão funcional.
O jovem explicou que pretende desenvolver soluções tecnológicas que possam ajudar as famílias em tarefas quotidianas, incluindo o transporte de água em contextos de dificuldade.
Rádio Zango 8000: Que outros projectos tem em preparação?
Domingos Jacinto: Estou a desenvolver uma ideia ligada à Segurança Angolana, que envolve robôs. Ainda está em estudo e poderá levar muito tempo, mas quero continuar a trabalhar nela. A minha intenção é desenvolver algo que possa ajudar a sociedade.
Formação técnica e apoio institucional entre as prioridades
Apesar da vontade de continuar a inventar, Domingos Jacinto reconhece que precisa de mais conhecimentos e de condições que lhe permitam aperfeiçoar os seus protótipos.
Durante a entrevista, revelou que já entregou uma carta na recepção da Televisão Pública de Angola (TPA), com o objectivo de apresentar os seus projectos, mas afirmou que ainda não recebeu uma resposta.
O inventor manifestou disponibilidade para mostrar as suas criações a instituições públicas, empresas e outros organismos que possam contribuir para o desenvolvimento das suas ideias.
Rádio Zango 8000: Que tipo de apoio considera mais importante neste momento?
Domingos Jacinto: Em primeiro lugar, preciso de formação. Gostaria de frequentar cursos técnicos para aprender mais e conseguir desenvolver novas tecnologias. Também preciso de apoio para melhorar os meus projectos e de oportunidades para apresentar aquilo que tenho criado.
Para o jovem, a formação poderá representar um passo importante para transformar os protótipos experimentais em projectos mais desenvolvidos, com possibilidade de aplicação prática.
A música como expressão das dificuldades e da esperança
Para além da tecnologia, Domingos Jacinto encontra na música uma forma de expressar experiências pessoais e realidades sociais.
Durante a entrevista, explicou que muitas das suas composições surgem da observação das dificuldades enfrentadas pela mãe e da vontade de transmitir mensagens de esperança, união e solidariedade.
O jovem afirmou que consegue criar músicas sem necessariamente escrever previamente as letras. Para demonstrar essa capacidade, interpretou ao vivo, na Rádio Zango 8000, uma composição inspirada nas dificuldades familiares e na esperança de alcançar dias melhores.
Na sua interpretação, destacou também a importância da solidariedade entre os angolanos, independentemente da sua origem ou província.
Rádio Zango 8000: Onde pretende chegar com a música e com as suas invenções?
Domingos Jacinto: Com a música, quero chegar a outros países. Com a tecnologia, também quero levar o nome de Angola para fora e mostrar que o nosso país é capaz de desenvolver as suas próprias criações.
O inventor acrescentou que gostaria de contribuir para a formação de outros jovens com capacidade para desenvolver projectos, defendendo a valorização das ideias produzidas em Angola.
Mensagem à juventude angolana
Questionado sobre os desafios da sociedade e o papel dos jovens, Domingos Jacinto apelou à dedicação, ao trabalho e à definição de objectivos para o futuro.
Na sua perspectiva, a juventude deve procurar desenvolver as suas capacidades e evitar comportamentos que possam comprometer a concretização dos seus sonhos.
O entrevistado considera que o país precisa de jovens dispostos a aprender, experimentar e trabalhar para encontrar soluções para os problemas da sociedade.
Um percurso que procura transformar criatividade em oportunidades
A história de Domingos Jacinto revela uma trajectória de persistência, na qual as dificuldades económicas contribuíram para despertar o interesse pela criação de soluções com materiais acessíveis.
As suas experiências abrangem a construção de pequenos veículos electrónicos, a elaboração de um sistema experimental para carregamento de telemóveis, a criação de um instrumento musical artesanal e o desenvolvimento de uma ideia ligada à robótica.
No entanto, os projectos apresentados encontram-se em diferentes fases de desenvolvimento e necessitam de formação, testes, aperfeiçoamento e, quando aplicável, validação técnica para que as suas capacidades e limitações possam ser devidamente estabelecidas.
O apelo do jovem inventor dirige-se sobretudo às instituições e entidades que possam facilitar o acesso à formação técnica, a equipamentos e a oportunidades de apresentação dos seus trabalhos.
A entrevista à Rádio Zango 8000 termina com uma questão que vai além da história individual do inventor: que oportunidades devem ser criadas para que mais jovens angolanos possam desenvolver, testar e aperfeiçoar as suas ideias?
Assista a entrevista
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