O produtor musical e DJ cabo-verdiano DJ Letra, conhecido artisticamente como “The Funk Man”, revelou, em entrevista exclusiva ao programa Conexões Hip Hop, da Rádio 8000, detalhes sobre a sua trajetória de quase três décadas na cultura urbana, a evolução do Hip Hop em Cabo Verde e a sua participação como produtor no projeto lusófono “Conexões Volume 2”.
Natural da cidade do Mindelo, ilha de São Vicente, Cabo Verde, DJ Letra iniciou o seu percurso na cultura Hip Hop ainda na adolescência, aos 13 anos, como praticante de breakdance. Segundo contou, o primeiro contacto com a dança aconteceu num contexto marcado pela pouca disponibilidade de informação e materiais relacionados com a cultura Hip Hop.
Antes de se dedicar ao Hip Hop, o artista teve contacto com a dança tradicional através do grupo Estrelas de Cabo Verde, no seu bairro. A procura por novas formas de expressão levou-o, juntamente com outros jovens, a descobrir o breakdance e a aproximar-se dos primeiros praticantes da modalidade em São Vicente.
Com a evolução do movimento Hip Hop em Cabo Verde, particularmente a partir do início da década de 1990, DJ Letra começou a interessar-se pelo rap e pela produção musical. Ao lado de outros jovens, participou em sessões de freestyle e, posteriormente, integrou o grupo Brothers For Life (BFL), onde inicialmente desempenhou as funções de DJ.
Da falta de instrumentais ao nascimento do beatmaker
Um dos momentos decisivos da carreira de DJ Letra surgiu precisamente da dificuldade em encontrar instrumentais para os rappers da época.
De acordo com o produtor, era comum vários grupos utilizarem os mesmos instrumentais retirados de cassetes e CDs. Em determinados espetáculos, mais de cinco grupos podiam apresentar-se utilizando a mesma base instrumental.
A situação levou-o a procurar uma solução: começar a produzir os seus próprios beats.
A partir daí, DJ Letra consolidou-se como DJ e beatmaker, passando a construir uma identidade própria dentro do movimento Hip Hop cabo-verdiano.
“Não me considero um rapper”
Apesar de também escrever e interpretar algumas rimas, DJ Letra esclareceu que não se considera rapper. O envolvimento com o rap surgiu principalmente através do incentivo dos seus colegas, que reconheceram nele capacidade para transmitir ideias através das rimas.
Para o artista, ser MC exige dedicação, treino e responsabilidade, uma vez que o rapper assume também o papel de pensador, filósofo e mensageiro.
Por essa razão, prefere concentrar a sua energia naquilo que considera ser o seu principal propósito dentro da cultura: a produção de beats e o scratch.
Hip Hop cabo-verdiano mantém força no underground
Questionado sobre o atual estado do Hip Hop em Cabo Verde, DJ Letra considera que o movimento genuinamente ligado às raízes da cultura voltou a encontrar espaço no underground.
O produtor observa que vários artistas que começaram no Hip Hop underground passaram posteriormente a explorar estilos como Afro House e Afro Beats, sobretudo no circuito comercial. No entanto, defende que a essência do Hip Hop continua viva através de uma nova geração de MCs e produtores.
Segundo DJ Letra, o underground cabo-verdiano reúne atualmente rappers com elevado nível técnico, capacidade de pensamento e preocupação em preservar os princípios fundamentais da cultura.
DJ Letra integra “Conexões Volume 2”
Durante a entrevista, o produtor confirmou também a sua participação no “Conexões Volume 2”, projeto que pretende aproximar artistas e produtores da comunidade lusófona.
O convite chegou através das redes sociais e da ligação estabelecida com a apresentadora do programa, Rapdiva. Para DJ Letra, as plataformas digitais têm desempenhado um papel importante na aproximação entre artistas de diferentes países, permitindo a divulgação de trabalhos, a criação de amizades e o estabelecimento de novas parcerias.
O produtor revelou ainda que já trabalhou com artistas de Portugal, entre eles Sunrise, Bambino, Big, da Margem Sul, e Xulás, experiências que considera importantes para o seu percurso.
Sobre a participação no novo volume do projeto Conexões, garantiu que pretende entregar o melhor resultado possível, movido pelo respeito e pelo amor ao rap.
Uma ponte entre os países lusófonos
No final da entrevista, DJ Letra deixou uma mensagem de união para os integrantes da cultura Hip Hop em Angola, Brasil, Guiné-Bissau, Moçambique, Cabo Verde e restantes territórios da lusofonia.
O produtor destacou o trabalho desenvolvido por artistas do underground lusófono e revelou que acompanha e divulga parte dessa produção através do seu programa “Planeta Rap de Cabo Verde”, onde tem apresentado músicas de artistas ligados ao movimento underground.
A entrevista terminou com uma mensagem de união e respeito pela cultura Hip Hop, reforçando a importância das conexões entre artistas lusófonos.
DJ Letra, também conhecido como The Funk Man, deixa assim uma marca de quase 30 anos dedicados à cultura Hip Hop, mantendo-se ligado às suas raízes como DJ, beatmaker e agente de ligação entre diferentes gerações e geografias da cultura urbana.
Clica para ouvir a entrevista
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