O rapper luso-santomense Valete, uma das maiores referências do hip-hop lusófono, afirmou que o rap consciente continua a desempenhar um papel fundamental na formação cívica e social da juventude, defendendo que a música deve unir qualidade artística, reflexão e compromisso com a realidade das comunidades.
As declarações foram feitas durante uma entrevista conduzida pela apresentadora Karla Rap Diva, no programa Conexões Hip-Hop, da Rádio Zango 8000, transmitido a partir de Angola.
Ao explicar a origem do seu nome artístico, Valete revelou que a inspiração surgiu após assistir a um documentário sobre ilusionismo. Segundo o rapper, o "Valete" era apresentado como a carta capaz de impedir que os truques dos mágicos funcionassem, simbolizando alguém que não se deixa enganar pelas ilusões. Embora admita que hoje talvez escolhesse outro nome, considera que o significado continua a refletir a sua missão artística.
Durante a conversa, o músico destacou que o rap consciente desempenha um papel educativo junto da juventude, sobretudo numa época em que muitos jovens mantêm pouca ligação com a leitura e com o pensamento crítico.
"O rap pode aproximar os jovens de temas como política, religião, cidadania e justiça social de uma forma acessível", explicou, acrescentando que a sua carreira sempre procurou equilibrar a intervenção social com a dimensão artística.
Valete afirmou ainda que um artista não deve limitar-se a uma única identidade, defendendo uma visão multidimensional da música, onde coexistem o pensamento crítico, a criatividade, o entretenimento e a qualidade musical.
Custos elevados desafiam artistas independentes
Questionado sobre os maiores desafios da carreira, Valete apontou o elevado custo de produção musical como um dos principais obstáculos enfrentados pelos artistas independentes.
Segundo explicou, produzir uma música com os padrões de qualidade que atualmente exige representa um investimento significativo, obrigando muitos músicos a abandonar projetos por falta de sustentabilidade financeira.
Para contornar essa realidade, revelou que desenvolveu outros negócios fora da música, cujos lucros servem para financiar o seu percurso artístico.
Na sua perspetiva, muitos jovens artistas devem evitar abandonar a música apenas por não conseguirem suportar elevados custos técnicos, defendendo que, em determinadas fases da carreira, é preferível lançar trabalhos com recursos mais modestos do que interromper completamente a produção artística.
Conselho à nova geração
Dirigindo-se aos jovens MCs, Valete aconselhou perseverança, responsabilidade financeira e dedicação permanente ao aperfeiçoamento artístico.
O rapper sublinhou que letras de forte impacto social, por si só, não garantem o sucesso de uma música.
"Antes de tudo, isto é música. É preciso combinar uma grande letra com flow, musicalidade, composição e qualidade sonora", afirmou.
Segundo o artista, o verdadeiro rapper consegue unir conteúdo, técnica e capacidade de comunicação, tornando a mensagem acessível sem perder qualidade artística.
Reconhecimento ao hip-hop lusófono
Na reta final da entrevista, Valete deixou mensagens de reconhecimento a diversas figuras do hip-hop de língua portuguesa, destacando o trabalho desenvolvido por artistas e produtores de Moçambique, entre eles Duas Caras, Hernâni, Kalashnikov, Mark Exodus e os irmãos Letella.
O músico manifestou igualmente a sua admiração pelo movimento hip-hop moçambicano, considerando-o uma importante referência cultural dentro da lusofonia.
A entrevista integrou uma edição especial do programa Conexões Hip-Hop, conduzido por Karla Rap Diva, que reuniu representantes de vários países lusófonos, reforçando a promoção da cultura hip-hop e do intercâmbio artístico entre Angola, Portugal, Moçambique, Brasil, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe.
Fonte: Rádio Zango 8000 (Programa Conexões Hip-Hop.)
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